quinta-feira, 23 de abril de 2009

a crítica de arte e suas modificações históricas

Introdução

A crítica de arte baseia-se em uma análise que emite juízo de valor à obra de arte. Atua, sobretudo, como mediadora entre a obra de arte e o espectador, podendo também exercer o importante papel de legitimadora da arte. Meu objetivo neste texto é estabelecer uma visão sobre a crítica de arte através da comparação entre o desenvolvimento da crítica na arte moderna e na arte contemporânea, dessa forma farei uma análise histórica que auxiliará a compreensão da crítica hoje e sua relevância diante do circuito artístico.
O surgimento da prática da crítica de arte tal qual conhecemos hoje data do Séc. XVIII, no entanto é possível que posturas anteriores tenham influenciado suas metodologias. Desde a Antiguidade já era desenvolvida uma literatura que se preocupava com um discurso sobre a arte, seja nas biografias de artistas, textos filosóficos ou tratados de arte. “No entanto, só a partir do séc XVIII e da época do Iluminismo que a literatura sobre a arte tomou a forma de disciplina crítica.” (ARGAN, 1988, p. 127). Para Venturi o ambiente do século XVIII foi propício para o desenvolvimento da ciência filosófica, que reconheceria a autonomia da arte: a estética. Esta que foi também responsável pela aproximação entre conhecimento e sensibilidade no século da razão. E é por meio do crescimento de pesquisas, discussões e teorias a respeito da arte, que a crítica, nesse período, desenvolveu-se como analítica, questionadora e reflexiva, diante dos valores que originam a obra de arte.
Assim como a história da arte, a crítica de arte baseia-se em metodologias, ambas utilizam recursos que oferecem ao texto uma qualidade científica. No entanto tratam de objetos de estudo diferentes. A primeira se encarrega de uma pesquisa histórica, ou seja, de uma arte que já foi produzida e possibilita um distanciamento crítico para sua análise. A outra se faz na atualidade, dá conta do que é produzido hoje, a crítica de arte se faz no agora. Venturi diz que a distinção entre críticos e historiadores “é um tanto insidiosa porque induz os críticos a ignorarem a história e os historiadores carecem de toda a espécie de crítica” (p. 27). O historiador exerce antes de qulaquer coisa, a função de crítico. No entanto, o crítico de arte não atua como historiador, sua pesquisa se aprofunda mais na produção que lhe é contemporânea. Ainda assim, não podemos restringir sua área de conhecimento, o crítico também deve possuir embasamento na história da arte para estabelecer relações e construir sua teoria. Apesar de a crítica também possuir métodos, nem sempre eles serão condizentes com os trabalhos a serem criticados. Esse será nosso foco de comparação entre a crítica moderna e a crítica conemporânea. O que torna suas posturas diferentes? Para estabelecermos um panorama sobre este assunto, teremos como referência a crítica Greenbergiana a fim de relaciona-la com as condições e características da contemporaniedade.

Crítica moderna

Segundo Argan, na cultura moderna a crítica de arte é uma disciplina autônoma e especializada. É no final do século XIX e principalmente na primeira metade do século XX que a crítica de arte se afirma e ocupa uma importante posição dentro do circuito. Precisamos pensar no tipo de arte que se desenvolvia naquele momento. Vamos nos ater ao início do século XX, quando se definiram as vanguardas européias. Os próprios movimentos vanguardistas se posicionavam criticamente diante de sua produção, diferenciando-se uns dos outros, algo que até então não era comum. Esse fato provavelmente ocorreu devido ao acontecimento simultâneo dessas diferentes correntes. Para dar conta dessa produção efervescente, a crítica mais do que nunca precisaria de pradrões tão específicos e especializados quanto os grupos artísticos. Sendo assim, a crítica se serviu bastante dos métodos para o seu desenvolvimento. A crítica das formas, por exemplo, foi um dos expoentes neste sentido.
“Do seu ponto de vista não existem premissas teóricas, experiências culturais, impulsos fantásticos ou sentimentais, conteúdos religiosos, históricos, morais ou narrativos que condicionem a obra do artista: a forma visual é plenamente reveladora no seu “próprio” conteúdo ou significado, que afinal não é senão a sua própria ordem ou equilíbrio, a sua própria estrutura. Os críticos da “pura visibilidade” propõem-se, portanto, isolar no contexto das obras aqueles que consideram ser os princípios estruturais da forma (verticais, horizontais, diagonais, ângulos, curvas, espirais, etc.), separando assim os conteúdos significativos das formas dos das coisas representadas.” (ARGAN, p. 145)
Clement Greenberg, o grande crítico do modernismo fez uso desses conceitos para formular sua tese. Realmente o formalismo contrubuiu para a compreensão da arte moderna, ele destaca características que não seriam levantadas por outros métodos e que são importantes para o desenvolvimento da arte. Através de sua crítica Greenberg seleciona e categoriza (não no sentido histórico, mas com o intuito de diferenciar os trabalhos) a produção que estava sendo realizada. Dessa forma o crítico atua como mediador entre o espectador e a obra, através do emprego de um juízo de valor à ela. “Sua vocação é mostrar, tanto na arte contemporânea como na arte do passado, o que ele prefere, contrapondo-o ao que não prefere e, de certo modo, convidar o leitor a ver se está de acordo com ele.” (FERREIRA, p. 144 – resposta de Clement Greenberg à Anan Hindry).
Greenberg acreditava que existia uma forma correta de se ver um trabalho. A leitura de uma obra deveria ser feita em um ambiente sem qualquer tipo de poluição visual, apenas a obra de arte e através do primeiro encontro com a obra que a opinião sobre ela seria formada. Essa concepção que gerou o espaço que conhecemos hoje como “cubo branco”. Foi neste momento, durante o modernismo, que a estrutura dos museus se estabeleceu com os padrões que conhecemos hoje. A instituição exerce papel legitimador, assim como o crítico de arte. Greenberg acompanhou a ascenção de Pollock e de certa forma foi também responsável pela sua repercussão. Não estamos diminuindo o mérito do artista, mas apenas evidenciando o poder de persuasão que um crítico de arte possui. Devemos nos lembrar que Greenberg desconsiderou a produção dadaísta e surrealista da sua seleção. Esses são fotores importantes na crítica de arte, pois exercem influência no público. Vejamos a fala de Greenberg em entrevista à Anan Hindry:
“Não digo: “concordem comigo, porque sou eu que estou dizendo” e sim: “olhem a arte de que estou falando, e vejam se estão ou não de acordo comigo”. As palavras não bastam, é preciso olhar. Já me aconteceu de mudar de opinião, mas nunca por causa da retórica de alguém, apenas porque fui rever alguma coisa após ter tomado conhecimento do juízo de alguém cujo gosto eu respeitava” (FERREIRA, p. 145)
Mesmo com seu discurso quase incontestável, Greenberg ainda reconhece que o concordar ou com a crítica é um julgamento do leitor/espectador, ele diz que principalmente é “preciso olhar”, ou seja, é preciso fazer sua própria leitura da obra.

Crítica contemporânea

A crítica contemporânea encontra uma produção artística bastante diferente da obtida na arte moderna. Toda a discussão em torno de questões próprias a arte da especialização do meio e de uma negação do passado – que podemos entender como uma nova postura, através de valores diferentes do passado, mas com referência nele –, possibilitou uma consciência maior a respeito da conceituação da obra de arte e por um outro lado, um esgotamento do meio (devido à intensa exploração de seus recursos). Com isso, a arte se encaminha para o desenvolvimento de outras questões, modificando também o seu entorno, a forma como deve ser percebida, os critérios e os juízos de valor a ela aplicados. A arte contemporânea, ao contrário do que se percebe nas vanguardas, não possui um sentimento negativo à arte do passado. “É parte do que define a arte contemporânea que a arte do passado esteja disponível para qualquer uso que os artistas queiram lhe dar.” (DANTO, 2006, p.7). Essa nova produção coloca em xeque a crítica de arte, ou pelo menos como até então era desenvolvida.
Arthur Danto atento para a obra de Warhol: “o que muda profundamente com a mostra de Warhol, naquele momento histórico, é que a obra de arte não se submete mais a nenhuma forma particular e que a análise da obra de arte não se faz através da visão, mas da análise filosófica.” (DANTO, 2000, p. 200) A questão colocada aqui é que a obra de arte só se diferencia do que não é arte por se encontrar no museu, não há um caráter visual que denomine aquele trabalho como arte. Existe aqui uma questão conceitual, que vinha sendo muito bem trabalhada no modernismo. Por isso Duchamp faz tanto sentido hoje, pois atua no campo conceitual e não no da visualidade que Greenberg procurava. Pois bem, se a visualidade na obra de arte não mais tem importância, que critérios se estabelecerão para esse julgamento? Possuí-los-á alguma validade?
“O que aconteceu foi que o crítico, a partir de então, já podia dissolver as fronteiras que o separavam da criação artística. Não literalmente, como vinha fazendo até então, mas artisticamente. Por quê? Porque a mediação e a idéia passaram a ter maior importância do que o produto final. O crítico que sempre usou conceitos para falar da mediação e do produto, quer dizer, dos elementos formais do trabalho, o crítico passou a usar idéias para falar quase apenas de idéias. No fim, o que o crítico estava fazendo era o mesmo que o artista. Os dois fazendo arte e fazendo crítica.” (LEINER, p. 57)
A crítica de arte assim como o que passou a ser produzido, teve que sofrer modificações, pois uma crise é colocada em questão. Acreditamos que essa mudança tenha sido em primeira instância em relação à metodologia abordada. Não mais se poderia fazer uma crítica baseando-se em apenas um caráter da obra de arte, a apreensão dessa produção só se faz possível com a ampliação do olhar.
Outra característica da crítica contemporânea, é que ela – e isso pode estar relacionado ao que Sheila Leiner atenta – se propõe a estabelecer um diálogo com a obra, a tecer um comentário, um acréscimo. Quero chamar atenção para o fato de que a crítica contemporânea é claro que não podemos generalizar, mas de fato, em sua maioria possui uma postura muito mais compreensiva, menos rigorsa que a crítica moderna, principalmente pensarmos a crítica do século XXI. Pensemos na figura descrita por Deleuze em carta a um crítico severo, existe uma tendência para que esse tipo de crítico, seu posicionamento, não mais tenha valor, pois sua contribuição é reduzicionista. A crítica contemporânea relativiza mais, tenta ser mais cautelosa, tanto pela diversidade da produção contemporânea e suas múltiplas possibilidades de leitura, quanto por uma trajetória da própria crítica, de uma reflexão das abordagens feitas anteriormente.

Conclusão

Assim como a arte, a crítica também se modifica ao longo da história, suas mudanças acompanham as mudanças artísticas. Poderíamos dizer também que as mudanças artísticas ocorrem por conta da crítica? Talvez sim. Crítica e arte são interdependentes, ou seja, influenciam-se o tempo todo. E assim como a arte se desenvolve através de uma crítica, uma reflexão, do que se foi produzido anteriormente, a crítica se desenvolve também por uma auto-reflexão em conjunto com a produção contemporânea.
Uma das principais diferenças entre a crítica moderna e a crítica contemporânea é o fato de a moderna realmente querer se estabelecer no circuito, trazer uma autenticidade, ser gerada através de critérios específicos de análise e ter uma presença muito forte como legitimadora. Já a crítica contemporânea não precisa necessáriamente se estabelecer no circuito, mas como sua validade entra em xeque, é preciso uma reinvenção de seus critérios. A crtítica moderna atua, sobretudo, nos jornais, enquanto a crítica contemporânea dispõe de diversos meios de comunicação e inclusive, com a voga da internet, é através de blogs e revistas eletrônicas que sua atuação responde à carência de crítica de arte nos jornais. Isso de certa forma limita o reconhecimento dos críticos de arte, pois nem todos conseguem de fato uma publicação de grande visibilidade, o que possivelmente acontecia com menos frequência no modernismo.
Terminaremos com uma citação de André Richard sobre a necessidade da crítica de arte:
“Finalmente, em presença de formas de arte que não mais comportam um sentido universalmente reconhecivel (abstração, arte cinética) nem uma técnica avaliável (arte pop), pode-se perguntar onde se apoiaria legitimamente uma apreciação crítica. Talvez a resposta seja que, apesar das dificuldades, a crítica de arte, por mais inadequada que seja, responde a uma necessidade de compreender o fenômeno artístico e a um desejo de compartilhar o julgamento que se emite sobre as obras. Pode-se demostrar sua impossibilidade, mas deve-se constatar sua existência.” (p.2)

Bibliografia

ARGAN, G. C. Arte e crítica de arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1988
DANTO, Arthur C. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: Odysseus editora, 2006.
_______________. Arte sem Paradigma. In: Arte e Ensaios – revista do programa de pós-graduação em artes visuais EBA. UFRJ, 2000.
DELLEUZE, Gilles. Carta a um crítico severo. In: DELEUZE, Gilles. Conversações. Editora 34.
FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecília (org.) Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
LEINER, Sheila. Arte e seu tempo. São Paulo: Perspectiva: Secretaria do Estado da Cultura, 1991.
RICHARD, André. A crítica de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
VENTURI, Lionello. História da crítica de arte. Lisba: Edições 70.


(proposta de ivair reinaldim para a disciplina historiografia 2)

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