quarta-feira, 11 de novembro de 2009

se ela pudesse de alguma forma mudar seus passos
a dormência abandonaria o pé para tomar-lhe em espasmos
insaciáveis, os desejos voltavam a surgir e alguns nem mesmo ela conhecia

sábado, 24 de outubro de 2009

mira los colores

o que estaria olhando?
menina de olhos tristes
tão pequena e deixando escapar risadas
que silenciam quando olha pela janela
as cores que plantou
não se sabe quando olhará para trás
menina da sala vazia
com o pé esquerdo, apóia-se em cima do direito
deixa todo o peso concentrado no metatarso e nos dedos que estalam
e à espreita deixa-se perder o olhar no monótono movimento das nuvens
sua janela é uma televisão de nuvens que ela assiste passar
passar é uma atividade comum em sua vida
assim como a dor da leve dormência de seu pé direito
então se

sexta-feira, 31 de julho de 2009

"My funny Valentine
Sweet comic Valentine
You make me smile with my heart
Your looks are laughable
Unphotographable
Yet you're my favourite work of art"

terça-feira, 28 de julho de 2009

tô pagando a minha morte em prestações suaves

sexta-feira, 24 de julho de 2009

uma, de papel

Hoje minha tarde foi separar os teus pedaços que ainda guardo profundo em mim, numa distância segura aos olhos. Tenho aprendido nesses últimos meses a olhar pra mim. Porque eu me deixei e deixo sempre. E você sabe, você sempre me pede o cuidado comigo mesma. Mas é difícil, e desconfio que você saiba disso também...
Escrevo-te porque quero ser relida. E isto que te escrevo é pedido para que tu leias a ti mesma, para que você abra as caixas e envelopes esquecidos. Ou simplesmente para que você ouça o pulsar do seu corpo e siga para onde ele te leva. Eu sei que é difícil, mas me sinto necessidade de te pedir cuidado consigo mesma.
E desde que tudo se fez tão longe, não reconheço mais suas vontades. E nem te deixo ver as minhas. E às vezes tudo o que preciso são áreas de respiro. Ar nos pulmões. Porque é o que me resta. Mas confesso que ouvindo o meu desritmo às veses me pego rindo esses dias. É o que te falei sobre os pedaços de vontade que agarro.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A concepção de informe se dá no livre jogo de complementaridade do seu oposto: a ordem da forma. Necessário se fazer valer deste jogo, onde uma força é o que mantém a existência da outra. Assim também se vale a arte. A imagem dúbia da boca descrita por Michel Leiris na revista Documents, revela o ideal que se contradiz em si mesmo: "de um lado, "a boca ocupa uma situação privilegiada, sendo o lugar da palavra, o orifício respiratório, o antro onde se sela o pacto do beijo"; de outro, ela produz "o cuspe, para de um só golpe cair ao último grau de escala orgânica com uma repugnante função de dejeção" (MORAES, 2002).

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Os olhares pela janela nunca são ter domínio sobre si.
Olhar é estar à deriva,
Ser suscetível ao vir a ser.
Estar em inúmeros lugares que se fundam no imaginário.
A neblina permite isso,
Permite essa fuga ao que não é ou ao que quase é.
Esses não-lugares que se formam,
São os desejos despercebidos daqueles olhares.
do pouco que tinha, construía. lapidando cuidadosamente sua maquiagem, percebera que a mentira tornou-se sua única verdade e motivação. se lapidava diariamente boca, olhos, face e por fim, o belo sorriso no rosto e a meiguice que de fato era sua. só não sabia que a cada movimento de lapidação, cada sorriso no espelho, era um corte que sangrava imperceptível. então cada vestido, cada rodopio, cada canção tornaram-se pouco a pouco suas hemorragias internas. e tão pouco soubera que tudo não se passava de alucinação, a não ser quando desenterrou os pequenos restos de sobrevôos do seu coração descompassado.

domingo, 19 de julho de 2009

sábado, 18 de julho de 2009

"E Todo o resto, palavras enviadas e declarações repetidas são apenas um exercício de perda motivado por novos desejos e delírios de felicidade e situações análogas que adoramos em filmes."

(a.f.)
eu ia te acordar, caso quisesse conversar, mas achei melhor não. já estamos tão distantes mesmo. não importa o lugar que você dorme, em qualquer um deles a cama vai ser ocupada por você. e não é pela pessoa que está do seu lado que tudo irá mudar, e você sabe disso. goze do escuro e do frio. eu precisei deles pra dar meus pequenos passos, talvez (e só talvez) você também precise.

por isso escrevo reto no meu diário, porque não quero nada bonito, quero uma mentira menos falsa, só isso. poder criar coisas em que eu acredite, porque infelizmente preciso delas, senão fico andando morta por aí. e mesmo assim, nada que escrevo é certeza, porque isso não existe. então é esperar para morrer de novo e tentar levantar. eu fico feliz quando percebo que ainda tenho vontade das coisas, aliás, passei a dar valor pra muita coisa besta que eu nem ligava, só porque não aguentava mais me arrastar pelos dias...

ainda não fui num consultório porque não tenho coragem. então me engano, me arrasto, me saboto e às vezes me sorrio pra continuar. eu não sei se aguentaria encarar minhas verdades inventadas, então eu fujo. e sei que vai chegar o dia que o peso sobre minhas pernas será maior do que posso aguentar e terei que procurar alguma ajuda, ou fazer alguma loucura. mas agora eu consegui sair da boca do abismo e me arrastar até tem um gosto doce na boca, então conviver comigo está sendo bom. e eu tento ser mais leal também.

ver a nossa vida se desfazer aos nossos olhos pode ser uma das piores coisas que existem. as relações, as escolhas, as certezas, as dúvidas, os sonhos, os medos. quando não sobra nada ou muito pouco, é bem difícil. mas assim a vida se faz. começamos a morrer a partir do momento em que nascemos e quanto mais distantes desse momento mais próximos da morte e dos rompimentos, dos finais, do seco. eu me sequei bastante, mas estou aprendendo a dar uma rasteira na vida (ou em mim mesma que criei tudo isso). e assim passei a caminhar no lento, ao lado de minhas incertezas.

tento não me obrigar a fazer as coisas. e quando sinto uma pontinha de vontade própria, tento me agarrar à ela. preciso das coisas que me dão prazer, tenho que ceder à elas como cedo às minhas dores. assim me sinto um pouco mais viva.
ainda estou aprendendo.

um bom dia, e um sorriso de lua pra você.

18-07-09

meu dia começa quando
não aguento mais abrir os olhos
de dor tão forte
a luz tem feito meus olhos doerem
e ter que despedir e desabrçar
e todos esses des que a vida traz
que me dão tanto medo
também não sei porquê me brota
o que já tinha dado por findado
me alivio assim,
quando não aguento mais abrir os olhos
de dor tão forte
que se desmancha no teu sorriso,
e todos os des que me vêm depois dele
me dão tanto medo
que se desmancham no meu sorriso

eu, que não escrevo cartas

não vou escrever tão bonito assim, porque me estou fazendo escrever reto pra me entender melhor. comecei a fazer um diário, sem fantasia. um diário de cartografias, pra eu saber onde é que me encontro. não que eu tenha descoberto alguma coisa até agora, mas com ele fica mais claro o que é e o que não é bom pra mim. ou seja, onde eu me engano. é nisso que eu tenho me preocupado. porque se sabotar é maior merda que a gente faz. e a gente sempre faz.

estava muito bem no início da semana, agora nem tanto, mas lembrar dele me faz sorrir. me dopei também, o que não é bom, mas se eu quiser farei novamente. eu sei que me saboto, mas ainda não aprendi a parar de fazer isso. talvez eu aprenda ou talvez eu morra antes.

quanto a você, estou toda a ouvidos,
que é o que me resta a oferecer.
um beijo e meu amor.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

17-07-08

quase agora é quase
sinto um arrepio frio no centro da espinha dorsal
meu coração está lento
meu coração está lento
sinto que ele vai parar a qualquer
meu corpo se contorce
minha coluna dói
como o coração
e seu esforço para pulsar
um poço que deixa o sangue acumular
ocupo os ouvidos com o pulso
desritmo.

10-07-05

e naquele momento
era dominada pela música
por dentre danças intermináveis
escondia-se a magia
(que somente ela poderia ver)
não havia dúvidas que
(transcender)
era algo que simplesmente fazia parte dela
e que talvez somente ela
(e sua dança)
pudessem entender...

04-07-06

quando eu te encontrei e descobri que estava apaixonada? quando eu fiz as malas só pra poder te beijar? quando a gente viu cinco pôr-do-sol em um dia? quando a gente foi pra cachoeira e tudo virou cinema? quando você fez a minha vida ser melhor ainda? quando ouvíamos jack johonson sem cessar? quando os beijos eram intermináveis? quando você ficava me olhando dormir quando eu não estava dormindo? quando no dia fora do tempo a gente passou a se chamar de namorada? quando eu te deixei o meu colar e tive que ir embora? quando você chorou daquele jeito lindo que eu amo? quando eu beijei as suas lágrimas e disse que era para não chorar? quando a gente se amou a distância? quando as cartas triplicaram em quantidade e em amor também, visto que ele sempre aumenta? quando a gente passou por crises à distância? quando a saudade começou a doer insuportávelmente? quando nos reencontramos? quando nos beijamos e foi como a primeira vez? quando o mar era cúmplice do nosso amor? quando nós conversamos e choramos e nos entendemos? quando dançamos juntas? quando você me fazia sorrir que nem criança? quando todos percebiam mas não falavam nada? quando nos entendiamos no olhar? quando nós riamos e faziamos palhaçadas de madrugada? quando tinhamos medo de alguém aparecer? quando eramos prazer? quando você me pediu em casamento? quando eu fui embora com você? quando eu te preparava lanches e te esperava em casa pra almoçar? quando você me mandou mensagem dizendo que estava morrendo de saudade sendo que estávamos sem se ver há algumas horas? quando você chegava dizendo que sentiu a minha falta o dia inteiro? quando eu entrei no chuveiro vestida e molhei o seu cabelo? quando você me disse que eu fazia tudo parecer um filme? quando ficávamos horas na cama? quando a noite era muito pouco para nós? quando você passou? quando você me agradeceu? quando saíamos pras feiras? quando pegamos chuva? quando faziamos massagem? quando assistiamos filme? quando demos risada? quando brigávamos sem motivo? quando pedimos desculpa? quando fomos amor?

22-07-07

me joguei aberta pro mar
me lancei
num inspiro

agarro tempo
danço como vento
e o meu vestido
de cor nua


meventotodameventotodamevendotodame(in)ventotoda
"Tenho a intenção de narrar, à margem do relato que eu vou empreender, apenas os episódios marcantes de minha vida tal como posso concebê-la fora de seu plano orgânico, ou seja, na própria medida em que ela está confiada aos acasos, dos menores aos maiores, e, refugando a idéia comum que dele faço, introduzir-me num mundo como que proibido, que é o das aproximações repentinas, das petrificantes coincidências, dos reflexos que vencem qualquer outro impulso mental, de acordes batidos como no piano, de clarões que fariam ver, mas ver de fato, se não fossem ainda mais rápidos que os demais. Trata-se de fatos com um valor intrínseco pouco verificável, sem dúvida, mas que, por seu caráter absolutamente inesperado, violentamente incidental, e pelo gênero de associações de idéias suspeitas que despertam, são um modo de nos fazer passar das filandras à teia de aranha, ou seja, ao que seria a coisa mais cintilante e graciosa do mundo, não estivesse a aranha no canto, ou ali por perto; trata-se de fatos que, ainda que sejam simplesmente constatados, a cada vez apresentam todas as aparências de um sinal, sem que se possa dizer ao certo de que sinal; que fazem com que, em plena solidão, eu descubra cumplicidades inverossímeis, que me convencem de minha ilusão toda vez que acredito estar sozinho ao leme do navio. (...)"

. { Breton } .

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"O homem, diz Georges Bataille, "é o único animal que mata seus semelhantes com furor e obstinação"; porém, "ele é também o único que se transtorna de maneira absolutamente dilacerante coma morte de seus semelhantes". " (p. 149)

"Breton (...) escreve que é "preciso ter ido ao fundo da dor humana, ter descoberto sus estranhas capacidades, para poder saudar com o mesmo dom ilimitado de si mesmo aquilo que vale a pena viver"." (p. 153)

In: A transgressão do antropomorfismo. MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível. São Paulo, Iluminuras, 2002.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

só queria escrever esse era seu pensamento de fato no entanto pôs-se a desenrolar outros atos costurou por trinta minutos uma folha grossa de papelão com uma fina agulha de costura desenhou pontos milimetricamente calculados para que suas linhas não terminadas fossem de espaçamento iguais e paralelas então começou seu percurso de auto flagelação mental desenhando linha por linha com a força de quem sabe ainda não poderia menos dona de si menos corpo de si e pôs-se fio a fio dedos vermelhos em algumas passadas agulha lhe escapara os dedos doídos espetava-se no prazer indolor de ver nas pontas de seus dedos nascerem bolhas e dores que restariam pelos dias seguintes suas marcas invisíveis aos olhos dos ocupados insensíveis a si
a. amaral
bataille
breton
cortazar

anseio vossas palavras

terça-feira, 23 de junho de 2009

vinte e dois

ó cândida pureza
que trazes em tuas doces palavras
o céu já anuncia tua presença divina
e a luz que sobre ti reflete
pois quando mostras tua face
é como um coro de anjos
elevados pelas mais sublimes nuvens
que desenham teu sorriso

quinta-feira, 11 de junho de 2009

meus braços estão magros e fracos meu rosto pálido amarelo e suas covas elas já estam inscritas no tempo. minha respiração cansada é o sacrifício para suportar o peso das pernas tão inchadas que pouco levanto. meu sangue não circula bem e através de um tubo me circulam os outros líquidos. sento-me numa cadeira confortável, estico as pernas e descanso. não me faria diferença uma cadeira desconfortável e o descanso é sempre um cansaço maior, apenas mais uma espera.

domingo, 31 de maio de 2009

primeiro foram as desaprendizagens de obsessões.

terça-feira, 26 de maio de 2009

tive minhas unhas arrancadas
hoje meu sangue pisado é só um ponto
no meio de unhas crescidas
essas mesmas unhas que já apontaram
essas mesmas unhas que já cortaram
descansam esquecidas
em poças d'água que secaram com o tempo
essas mesmas unhas que já tocaram fogo
essas mesmas unhas que já se perderam
adormecem envelhecidas
pobres jazidas

sexta-feira, 22 de maio de 2009

sábado, 2 de maio de 2009

malagueta

porque eu quero a ardência.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

brinco no rodar das cores da minha saia
escrevo comentários de minhas ações
contemplo pois não posso ir além.

planto e vejo crescer.

estou cultivando sentimentos.
aprendi sobre o vento e a chuva
e como eles passam por mim.

criei uma superfície que me impediu ver
e precisei respirar fundo
para sentir as queimaduras de que me escondi.

eu vi tudo morrer na minha frente.
e plantei de novo.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

sempre tudo e sempre
quando olho pela janela
vejo sempre tudo e sempre
cinza
e lembro sempre tudo e sempre
fim

aos poucos me torno eu mesma a própria janela
sempre tudo e sempre
à espera.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

a crítica de arte e suas modificações históricas

Introdução

A crítica de arte baseia-se em uma análise que emite juízo de valor à obra de arte. Atua, sobretudo, como mediadora entre a obra de arte e o espectador, podendo também exercer o importante papel de legitimadora da arte. Meu objetivo neste texto é estabelecer uma visão sobre a crítica de arte através da comparação entre o desenvolvimento da crítica na arte moderna e na arte contemporânea, dessa forma farei uma análise histórica que auxiliará a compreensão da crítica hoje e sua relevância diante do circuito artístico.
O surgimento da prática da crítica de arte tal qual conhecemos hoje data do Séc. XVIII, no entanto é possível que posturas anteriores tenham influenciado suas metodologias. Desde a Antiguidade já era desenvolvida uma literatura que se preocupava com um discurso sobre a arte, seja nas biografias de artistas, textos filosóficos ou tratados de arte. “No entanto, só a partir do séc XVIII e da época do Iluminismo que a literatura sobre a arte tomou a forma de disciplina crítica.” (ARGAN, 1988, p. 127). Para Venturi o ambiente do século XVIII foi propício para o desenvolvimento da ciência filosófica, que reconheceria a autonomia da arte: a estética. Esta que foi também responsável pela aproximação entre conhecimento e sensibilidade no século da razão. E é por meio do crescimento de pesquisas, discussões e teorias a respeito da arte, que a crítica, nesse período, desenvolveu-se como analítica, questionadora e reflexiva, diante dos valores que originam a obra de arte.
Assim como a história da arte, a crítica de arte baseia-se em metodologias, ambas utilizam recursos que oferecem ao texto uma qualidade científica. No entanto tratam de objetos de estudo diferentes. A primeira se encarrega de uma pesquisa histórica, ou seja, de uma arte que já foi produzida e possibilita um distanciamento crítico para sua análise. A outra se faz na atualidade, dá conta do que é produzido hoje, a crítica de arte se faz no agora. Venturi diz que a distinção entre críticos e historiadores “é um tanto insidiosa porque induz os críticos a ignorarem a história e os historiadores carecem de toda a espécie de crítica” (p. 27). O historiador exerce antes de qulaquer coisa, a função de crítico. No entanto, o crítico de arte não atua como historiador, sua pesquisa se aprofunda mais na produção que lhe é contemporânea. Ainda assim, não podemos restringir sua área de conhecimento, o crítico também deve possuir embasamento na história da arte para estabelecer relações e construir sua teoria. Apesar de a crítica também possuir métodos, nem sempre eles serão condizentes com os trabalhos a serem criticados. Esse será nosso foco de comparação entre a crítica moderna e a crítica conemporânea. O que torna suas posturas diferentes? Para estabelecermos um panorama sobre este assunto, teremos como referência a crítica Greenbergiana a fim de relaciona-la com as condições e características da contemporaniedade.

Crítica moderna

Segundo Argan, na cultura moderna a crítica de arte é uma disciplina autônoma e especializada. É no final do século XIX e principalmente na primeira metade do século XX que a crítica de arte se afirma e ocupa uma importante posição dentro do circuito. Precisamos pensar no tipo de arte que se desenvolvia naquele momento. Vamos nos ater ao início do século XX, quando se definiram as vanguardas européias. Os próprios movimentos vanguardistas se posicionavam criticamente diante de sua produção, diferenciando-se uns dos outros, algo que até então não era comum. Esse fato provavelmente ocorreu devido ao acontecimento simultâneo dessas diferentes correntes. Para dar conta dessa produção efervescente, a crítica mais do que nunca precisaria de pradrões tão específicos e especializados quanto os grupos artísticos. Sendo assim, a crítica se serviu bastante dos métodos para o seu desenvolvimento. A crítica das formas, por exemplo, foi um dos expoentes neste sentido.
“Do seu ponto de vista não existem premissas teóricas, experiências culturais, impulsos fantásticos ou sentimentais, conteúdos religiosos, históricos, morais ou narrativos que condicionem a obra do artista: a forma visual é plenamente reveladora no seu “próprio” conteúdo ou significado, que afinal não é senão a sua própria ordem ou equilíbrio, a sua própria estrutura. Os críticos da “pura visibilidade” propõem-se, portanto, isolar no contexto das obras aqueles que consideram ser os princípios estruturais da forma (verticais, horizontais, diagonais, ângulos, curvas, espirais, etc.), separando assim os conteúdos significativos das formas dos das coisas representadas.” (ARGAN, p. 145)
Clement Greenberg, o grande crítico do modernismo fez uso desses conceitos para formular sua tese. Realmente o formalismo contrubuiu para a compreensão da arte moderna, ele destaca características que não seriam levantadas por outros métodos e que são importantes para o desenvolvimento da arte. Através de sua crítica Greenberg seleciona e categoriza (não no sentido histórico, mas com o intuito de diferenciar os trabalhos) a produção que estava sendo realizada. Dessa forma o crítico atua como mediador entre o espectador e a obra, através do emprego de um juízo de valor à ela. “Sua vocação é mostrar, tanto na arte contemporânea como na arte do passado, o que ele prefere, contrapondo-o ao que não prefere e, de certo modo, convidar o leitor a ver se está de acordo com ele.” (FERREIRA, p. 144 – resposta de Clement Greenberg à Anan Hindry).
Greenberg acreditava que existia uma forma correta de se ver um trabalho. A leitura de uma obra deveria ser feita em um ambiente sem qualquer tipo de poluição visual, apenas a obra de arte e através do primeiro encontro com a obra que a opinião sobre ela seria formada. Essa concepção que gerou o espaço que conhecemos hoje como “cubo branco”. Foi neste momento, durante o modernismo, que a estrutura dos museus se estabeleceu com os padrões que conhecemos hoje. A instituição exerce papel legitimador, assim como o crítico de arte. Greenberg acompanhou a ascenção de Pollock e de certa forma foi também responsável pela sua repercussão. Não estamos diminuindo o mérito do artista, mas apenas evidenciando o poder de persuasão que um crítico de arte possui. Devemos nos lembrar que Greenberg desconsiderou a produção dadaísta e surrealista da sua seleção. Esses são fotores importantes na crítica de arte, pois exercem influência no público. Vejamos a fala de Greenberg em entrevista à Anan Hindry:
“Não digo: “concordem comigo, porque sou eu que estou dizendo” e sim: “olhem a arte de que estou falando, e vejam se estão ou não de acordo comigo”. As palavras não bastam, é preciso olhar. Já me aconteceu de mudar de opinião, mas nunca por causa da retórica de alguém, apenas porque fui rever alguma coisa após ter tomado conhecimento do juízo de alguém cujo gosto eu respeitava” (FERREIRA, p. 145)
Mesmo com seu discurso quase incontestável, Greenberg ainda reconhece que o concordar ou com a crítica é um julgamento do leitor/espectador, ele diz que principalmente é “preciso olhar”, ou seja, é preciso fazer sua própria leitura da obra.

Crítica contemporânea

A crítica contemporânea encontra uma produção artística bastante diferente da obtida na arte moderna. Toda a discussão em torno de questões próprias a arte da especialização do meio e de uma negação do passado – que podemos entender como uma nova postura, através de valores diferentes do passado, mas com referência nele –, possibilitou uma consciência maior a respeito da conceituação da obra de arte e por um outro lado, um esgotamento do meio (devido à intensa exploração de seus recursos). Com isso, a arte se encaminha para o desenvolvimento de outras questões, modificando também o seu entorno, a forma como deve ser percebida, os critérios e os juízos de valor a ela aplicados. A arte contemporânea, ao contrário do que se percebe nas vanguardas, não possui um sentimento negativo à arte do passado. “É parte do que define a arte contemporânea que a arte do passado esteja disponível para qualquer uso que os artistas queiram lhe dar.” (DANTO, 2006, p.7). Essa nova produção coloca em xeque a crítica de arte, ou pelo menos como até então era desenvolvida.
Arthur Danto atento para a obra de Warhol: “o que muda profundamente com a mostra de Warhol, naquele momento histórico, é que a obra de arte não se submete mais a nenhuma forma particular e que a análise da obra de arte não se faz através da visão, mas da análise filosófica.” (DANTO, 2000, p. 200) A questão colocada aqui é que a obra de arte só se diferencia do que não é arte por se encontrar no museu, não há um caráter visual que denomine aquele trabalho como arte. Existe aqui uma questão conceitual, que vinha sendo muito bem trabalhada no modernismo. Por isso Duchamp faz tanto sentido hoje, pois atua no campo conceitual e não no da visualidade que Greenberg procurava. Pois bem, se a visualidade na obra de arte não mais tem importância, que critérios se estabelecerão para esse julgamento? Possuí-los-á alguma validade?
“O que aconteceu foi que o crítico, a partir de então, já podia dissolver as fronteiras que o separavam da criação artística. Não literalmente, como vinha fazendo até então, mas artisticamente. Por quê? Porque a mediação e a idéia passaram a ter maior importância do que o produto final. O crítico que sempre usou conceitos para falar da mediação e do produto, quer dizer, dos elementos formais do trabalho, o crítico passou a usar idéias para falar quase apenas de idéias. No fim, o que o crítico estava fazendo era o mesmo que o artista. Os dois fazendo arte e fazendo crítica.” (LEINER, p. 57)
A crítica de arte assim como o que passou a ser produzido, teve que sofrer modificações, pois uma crise é colocada em questão. Acreditamos que essa mudança tenha sido em primeira instância em relação à metodologia abordada. Não mais se poderia fazer uma crítica baseando-se em apenas um caráter da obra de arte, a apreensão dessa produção só se faz possível com a ampliação do olhar.
Outra característica da crítica contemporânea, é que ela – e isso pode estar relacionado ao que Sheila Leiner atenta – se propõe a estabelecer um diálogo com a obra, a tecer um comentário, um acréscimo. Quero chamar atenção para o fato de que a crítica contemporânea é claro que não podemos generalizar, mas de fato, em sua maioria possui uma postura muito mais compreensiva, menos rigorsa que a crítica moderna, principalmente pensarmos a crítica do século XXI. Pensemos na figura descrita por Deleuze em carta a um crítico severo, existe uma tendência para que esse tipo de crítico, seu posicionamento, não mais tenha valor, pois sua contribuição é reduzicionista. A crítica contemporânea relativiza mais, tenta ser mais cautelosa, tanto pela diversidade da produção contemporânea e suas múltiplas possibilidades de leitura, quanto por uma trajetória da própria crítica, de uma reflexão das abordagens feitas anteriormente.

Conclusão

Assim como a arte, a crítica também se modifica ao longo da história, suas mudanças acompanham as mudanças artísticas. Poderíamos dizer também que as mudanças artísticas ocorrem por conta da crítica? Talvez sim. Crítica e arte são interdependentes, ou seja, influenciam-se o tempo todo. E assim como a arte se desenvolve através de uma crítica, uma reflexão, do que se foi produzido anteriormente, a crítica se desenvolve também por uma auto-reflexão em conjunto com a produção contemporânea.
Uma das principais diferenças entre a crítica moderna e a crítica contemporânea é o fato de a moderna realmente querer se estabelecer no circuito, trazer uma autenticidade, ser gerada através de critérios específicos de análise e ter uma presença muito forte como legitimadora. Já a crítica contemporânea não precisa necessáriamente se estabelecer no circuito, mas como sua validade entra em xeque, é preciso uma reinvenção de seus critérios. A crtítica moderna atua, sobretudo, nos jornais, enquanto a crítica contemporânea dispõe de diversos meios de comunicação e inclusive, com a voga da internet, é através de blogs e revistas eletrônicas que sua atuação responde à carência de crítica de arte nos jornais. Isso de certa forma limita o reconhecimento dos críticos de arte, pois nem todos conseguem de fato uma publicação de grande visibilidade, o que possivelmente acontecia com menos frequência no modernismo.
Terminaremos com uma citação de André Richard sobre a necessidade da crítica de arte:
“Finalmente, em presença de formas de arte que não mais comportam um sentido universalmente reconhecivel (abstração, arte cinética) nem uma técnica avaliável (arte pop), pode-se perguntar onde se apoiaria legitimamente uma apreciação crítica. Talvez a resposta seja que, apesar das dificuldades, a crítica de arte, por mais inadequada que seja, responde a uma necessidade de compreender o fenômeno artístico e a um desejo de compartilhar o julgamento que se emite sobre as obras. Pode-se demostrar sua impossibilidade, mas deve-se constatar sua existência.” (p.2)

Bibliografia

ARGAN, G. C. Arte e crítica de arte. Lisboa: Editorial Estampa, 1988
DANTO, Arthur C. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: Odysseus editora, 2006.
_______________. Arte sem Paradigma. In: Arte e Ensaios – revista do programa de pós-graduação em artes visuais EBA. UFRJ, 2000.
DELLEUZE, Gilles. Carta a um crítico severo. In: DELEUZE, Gilles. Conversações. Editora 34.
FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecília (org.) Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
LEINER, Sheila. Arte e seu tempo. São Paulo: Perspectiva: Secretaria do Estado da Cultura, 1991.
RICHARD, André. A crítica de Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
VENTURI, Lionello. História da crítica de arte. Lisba: Edições 70.


(proposta de ivair reinaldim para a disciplina historiografia 2)
tenho me cortado bastante. existem cortes em meus joelhos. caídas que não pude levantar. meus dedos, eles estão cortados também. são leves feridas que nascem do toque nas coisas.
"hoje encontrei dentro de um livro uma velha carta amarelecida, rasguei-a sem ao menos saber de quem seria... eu tenho um medo horrível a essas marés montantes do passado, com suas quilhas afundadas, com meus sucessivos cadáveres amarrados aos mastros e gáveas... ai de mim, ai de ti ó velho mar profundo, eu venho sempre à tona de todos os naufrágios!"
dos cortes faço tranças que me tranportam passado-futuro. desses cortes nascem vertigens. hoje eu dei a luz à vertigem do mundo e minhas lágrimas cantaram para celebrar. chorar é um recurso que utilizo para me cortar menos. no entanto, toda água de mim secou. e agora eu seco a água do mundo na esperança que minhas feridas sequem também. não, eu não aprendi a chegar aqui. vim cavando meus buracos no que restou de luz. eu venho de dentro do grito. fui parida pelo estalo das minhas articulações cansadas. e desde então me ergo sobre meus pés para alcançar o vazio.
"a vida é um incêndio: nela dançamos, salamandras mágicas que importa restarem cinzas se a chama foi bela e alta? em meio aos toros que desabam, cantemos a canção das chamas!"

(a carta e inscrição para uma lareira de mário quintana)

domingo, 12 de abril de 2009

é dança que se faz
quando boca encosta
chuva pra lavar
pensamento-ilusão

quinta-feira, 9 de abril de 2009

olheiras debaixo
d'água

quinta-feira, 2 de abril de 2009

mandacaru e desejos

pesquisa.cursos.jardinagem.culinária.viagens.
artesanato.intercâmbio.restauração.leituras.
violoncelo.livros.alongamento.meditação.mar.

para hoje: plantar sementes.

quinta-feira, 26 de março de 2009

- ripsalis
- parodia
- pitaya
- melocactus
- notocactus
- aucampia
- flor de maio

tudo isso porque eu tenho fome.

quarta-feira, 25 de março de 2009

segunda-feira, 23 de março de 2009

máscara

senhorita tinôco reprodutibilizada.
quem diria que seria tão fácil e indolor?

domingo, 22 de março de 2009

quando dá a conta
o vento faz a curva
o cabelo enrosca
no canto da orelha
onde você sussurra
onde você me suga

e o cataveto e o catavento e o catavento e o

sábado, 21 de março de 2009

um pouco mais de luz para cegar a vista.
.

.

.


bem vinda de volta, senhorita tinôco!